Scarlett Marton – artigo para CPFL Cultura

CAFÉ FILOSÓFICO | A morte como instante de vida | Com Scarlett Marton 

 

“Não se pode olhar diretamente para o Sol nem para a morte: a gente não pode encarar o nada” François de La Rochefoucauld

A morte é certa e implacável. Sempre o foi. Apesar disso, ela não é um fato assimilado de maneira uniforme ao longo da história da humanidade – já foi cultuada pelos pagãos e tomada como assunto proibido pelo cristianismo. E a sociedade contemporânea, qual olhar lança sobre a morte? A filósofa Scarlett Marton percorre momentos históricos e apresenta as diferentes perspectivas sobre o momento final, no Café Filosófico.

 

A tela “O enterro do Conde de Orgaz”, do artista El Greco, apresentada por Scarlett em sua exposição, retrata uma lenda popular. Dizia-se em Toledo (Espanha), que o Conde de Orgaz havia sido uma pessoa extremamente benemérita e que, no momento em que ele morreu, os santos Estevão e Agostinho, retratados na tela, desceram do céu a Terra para sepultá-lo. Também é possível ver personalidades da cidade de Toledo e, no parte superior do quadro, santidades como Virgem Maria e São João Batista, ambos intercedendo pela alma do Conde de Orgaz. No meio da tela, é possível ver a alma do Conde sendo transportada por um anjo. 

“O interessante é que nada representa a morte neste quadro. É verdade que temos um corpo, mas nada nos garante que se trata de um corpo morto. Temos aí retratadas a vida eterna e a vida mundana. É um quadro que tem por título ‘o enterro’, mas onde não aparece o cadáver”, analisa Scarlett. 

A obra de El Greco é um retrato da dualidade – ela é claramente dividida em metade superior e metade inferior, separando assim o céu e a Terra, o divino e o humano, o sobrenatural e o natural, a morte e o corpo. Esta tela foi pintada no final do século 16, momento em que a idade média abre caminho para modernidade, e que a filosofia é marcada por dois grandes nomes: René Descartes e Francis Bacon. “Neste momento o homem se vê capaz de dominar tudo o que o cerca, de controlar os fenômenos da natureza e aqueles que se passam nele mesmo. Ele se vê dotado de liberdade, de iniciativa e de um enorme poder de criação”. 

Scarlett explica que aquelas mesmas dualidades presentes na tela de El Greco começam a se reafirmar e se fortalecer na idade moderna. “O ser humano deixa de ser um todo, ele se torna dividido em corpo e alma, em consciência e instinto, razão e paixões e assim por diante. Dentre essas dualidades uma se impõe com muita força – a dualidade entre a vida e a morte. É na modernidade que se inicia um processo lento e gradual de abandono da morte”. 

Afastamento da morte
“Não se pode olhar diretamente para o Sol nem para a morte: a gente não pode encarar o nada” – a frase de François de La Rochefoucauld, filósofo do século 17, é interpretada por Scarlett como uma prova de que somos incapazes de enfrentar a morte. “Quando La Rochefoucauld diz que se olharmos o Sol, nós nos cegamos e se tentarmos olhar a morte, nos perdemos, ele está dizendo, na verdade, que vida e morte são inconciliáveis”.

Se na modernidade vida e morte estão separadas, e a vida é privilegiada, na antiguidade greco romana, a morte tinha o seu lugar. A filosofia era tida como uma longa meditação sobre a morte. Prova disso é a frase de Platão “Preocupar-se em morrer é uma boa via de acesso à filosofia”.

Naquele momento se reconhecia o direito de morrer. Era ele que permitia aos doentes desesperançados o direito de colocarem fim a própria vida, recorrendo, por vezes, ao auxilio de outras pessoas. “Essa nossa discussão sobre a eutanásia, se fosse colocada na Grécia e na Roma antiga, ganharia outras cores”, afirma Scarlett.

Do pagos à morte como fenômeno
Outro exemplo da próxima relação entre vida e morte, na antiguidade, era o fato de que as casas eram construídas ao lado dos túmulos. Scarlett cita a crença pagã de que os ancestrais, quando enterrados, tornavam a terra sagrada. “Paganismo e pagão derivam do vocábulo latino pagos, que também dá origem às palavras ‘país’ e ‘paisagem’. A palavra pagos, originalmente, designava aquele espaço de terra onde se plantava. Acreditava-se que cada pedaço de terra era governado pelo espírito do ancestral da família, que lá havia sido enterrado, tornando assim a terra sagrada. Podemos dizer que no paganismo havia um apego mortal à morte”.

Ao paganismo se sucedeu o cristianismo. Se no paganismo a morte ocupava todo o espaço, no cristianismo a vida ocupa este espaço. A idéia da sacralidade da vida é introduzida pela religião cristã, e o homem perde o direito de decidir pela própria morte, pois agora ela é considerada um dom de Deus, que deve ser preservado. “É neste momento que a sacralidade da vida ganha todo seu esplendor, como podemos ver na obra de El Greco”, acrescenta a filósofa.

O historiador francês Philippe Ariès, autor de um ensaio sobre a morte no ocidente, defende a idéia de que o homem ocidental aos poucos expulsou a morte da vida cotidiana. “Ocorreu uma passagem muito lenta e progressiva da morte familiar, vivida na idade média, em que a família ficava em torno do corpo, para a morte reprimida e proibida dos nossos dias. No entender de Philippe, o ocidente passou a considerar a morte como um fato extraordinário, o que fez com que procurássemos, a todo custo, fugir dela”.

Páscoa – a vitória sobre a morte
Sepulcro vazio, ausência do cadáver. Um dos ápices do catolicismo é o relato do momento em que Jesus ressuscita. Seu corpo sobe aos céus, em um sinal de abandonando e desafio à morte. “Naquela manhã de domingo, em que aquelas mulheres chegaram ao sepulcro, e que ele estava vazio, não havia mais morto, não havia mais morte. É este domingo de Páscoa que passa a ser privilegiado. A religião cristã diz, então, que o que nós chamamos de morte é simplesmente uma passagem para a verdadeira vida”.

Morte contemporânea – morte como fenômeno demográfico
“Hoje vivemos uma situação paradoxal – de um lado, a banalização da morte, fala-se da morte o tempo todo, ela aparece para nós como fenômeno biológico, assim como o nascimento, a puberdade e o envelhecimento. A morte também aparece como fenômeno social. Fala-se então em taxas de mortalidade e de natalidade, ou como fenômeno demográfico – populações crescentes ou decrescentes… Ouvimos falar da morte permanentemente, basta abrir os jornais: noticias de guerras, mortes de personalidades, cataclismas, tsunamis, terremotos… Fala-se em permanência da morte. Cabe então a pergunta – porque a morte é sempre vista como uma espécie de escândalo? Porque este acontecimento tão banal de nosso cotidiano ainda provoca horror e curiosidade?” Questiona Scarlett, explicando que a morte é um fato que não se assemelha a nenhum outro. É um fato desmedido e incomensurável.

A filósofa faz, então, uma comparação da morte com o amor, que é algo sempre novo. “Nunca somos vacinados contra a morte. Quando uma pessoa próxima morre, precisamos enfrentar algo novo”.

Instante mortal e instante de vida
Scarlett explica que é impossível filosofar sobre o instante que a morte ocorre, pois ele é desprovido da consistência do vivido. “No fim das contas, a morte não nos concerne, dizia Epicuro, afinal, quando ela se faz presente, nós não estamos mais lá. Em suma, podemos dizer que a vida é incapaz de nos falar do nada”.

Se existe um instante mortal, existem incontáveis instantes de vida, tantos quanto o número de vezes que nos paramos para refletir sobre a relação vida e morte. “Cada vez que pensamos sobre a morte, estamos meditando sobre a própria contingência do nosso ser. Isto é, pensar que vou deixar de existir, é meditar sobre o fato de que nem sempre existi e poderia não ter existido. A morte vem nos perguntar do sentido de estarmos vivos… Nos tornamos mais humanos quando sabemos que vamos morrer, pois aí nos diferenciamos de todas as outras espécies”, afirma.

A partir da frase de Friedrich Nietzsche, sobre a proximidade entre vida e morte, a filósofa faz uma última análise. “Nos distanciamos dos antigos, para quem a morte tinha lugar privilegiado, nos distanciamos dos modernos, para quem a vida era soberana. E chegamos, agora, a pensar que vida e morte são duas faces da mesma moeda”.

 

Fernanda Bellei

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s