Antonio Mourão Cavalcante – artigo para CPFL Cultura

CAFÉ FILOSÓFICO | A morte como encantamento | Com Antonio Mourão Cavalcante 

 

Ofélia, a namorada suicida de Hamlet, flutuando serenamente em águas plácidas, rodeada de flores e coberta por musgos… Eis uma bela imagem da morte! Mas a morte pode ser bela? É possível encontrar alguma beleza neste momento em que as funções vitais cessam e o corpo começa a perecer?

 

Nossa polêmica relação com a morte pode ser analisada de vários pontos de vista, sob a luz de inúmeras disciplinas. O medo, a transcendência, os cuidados paliativos, o suporte familiar… Para cada detalhe que deve ser cuidado nessa transição, há um profissional responsável. Mas o que se espera que um médico psiquiatra diga sobre ela? Se esse médico for Antonio Mourão Cavalcante, seu discurso terá mais poesia do que trivialidades e fórmulas prontas para justificar o injustificável.

 

 

A morte como encantamento
A relação paciente-médico é ainda mais delicada quando uma vida está na fase terminal.O exercício de lidar com a morte nãoé fácil e, por isso, ela costuma ser negada, conforme conta Mourão. “Quando um paciente pergunta ao seu médico:Eu posso morrer doutor? – O médico geralmente responde:Imagina, isso nunca vai acontecer contigo! – Há uma resistência. O médico nunca admite que seu paciente é mortal”.

 

Outro ponto polêmico enfrentado pelos profissionais da saúde é definir o momento da morte. “Em algumas épocas da humanidade morrer era deixar de respirar e o coração deixar de bater. Hoje se fala de morte encefálica. Quando o paciente não tem atividade cerebral, ele está morto para a medicina. O difícil é convencer a família de que seu ente querido está morto, quando ele ainda está vendo os sinais de batimento”, comenta.

 

Durante uma de suas passagens por um hospital, Mourão fala do momento em que testemunhou uma equipe médica sendo “vencida” pela morte. Era uma equipe formada por uma médica, duas enfermeiras e uma assistente de enfermagem, realizando uma massagem cardíaca em uma paciente. “Após inúmeras tentativas de reanimar esta paciente, houve um determinado momento em que a médica diz – Pára, desliga! – O que fez esta médica tomar esta decisão? Lá estava a mesma pessoa, o mesmo sangue, o mesmo coração, os mesmos olhos …O que foi que aconteceu? Como admitir que a morte chegou? Este é um dos grandes mistérios da morte, aquela que ninguém sabe para onde é e como é”.

 

 

O velho lençol

 

O velho lençol da enfermaria guarda muitas histórias. 
Apresenta-se meio desbotado,
experimentou noites de dor e silêncio,
acalentou frio e medo.
Noutras circunstâncias, aparou vômitos, fezes e sangue.
O velho lençol, hoje, parece fatigado,
Tem manchas e descosturas.
Nestas noites indômitas, 
muitos gemidos contidos.
No último serviço fez-se embrulho, pacote lacrado, fechado, envolvendo um corpo inerte que era vida.
O velho lençol da enfermaria tem a sabedoria do vivido:
nem chora, nem reclama. Acha que é destino.

Antonio Mourão Cavalcante

 

 

Mourão explica que escreveu este poema quando era paciente do hospital de Fortaleza como transplantado renal. Testemunhou, então, um costume doshospitais daquela região: O paciente é sempre envolto com aquele lençol em que estava deitado no momento da morte. Quando alguém morre, portanto, o lençol também se aposenta.

 
A morte vista de longe
Não se morre mais em casa. Citando uma pesquisa realizada na França, Mourão afirma que, hoje, 75% das mortes ocorrem em ambiente hospitalar. Após a morte, a pessoa é levada para a funerária, não há mais contato com a família. “Do ponto de vista psicológico, a morte se tornou um ato solitário que acontece entre o paciente e as máquinas… O drama da sociedade ocidental não seria a negação da morte?”

 

A morte, segundo Mourão, tornou-se mais um negócio em nossa sociedade capitalista. A ato de morrer se tornou um evento asséptico. Não se tem mais contato com ela, paga-se para que outros cuidem do corpo do ente querido.

 

O ponto máximo da discussão é a qualidade com que se vive e a afirmação da morte. Esses aspectos sim, depende de nós.

 

“As pessoas não morrem, ficam encantadas. No final, a gente morre para provar que viveu”. Guimarães Rosa

 

“O encantamento não está somente no que se vê, mas também no que se imagina”. Rubem Alves

 

“Não gostaria de estar viva no ano 2000. Não seria mais o meu mundo”. Simone de Beauvoir

Fernanda Bellei

 

 

 

3 Respostas so far »

  1. 1

    elide fernanda de Almeida Leite said,

    Gostei muito da maneira como o tema Morte, foi abordado. Os enfrentamentos são indispensáveis para uma vida psiquíca saudável. Perdi meus pais e choro por eles e por mim tbm, mas aprendi que o luto experiênciado em todas as suas fases e faces nos ajuda a lidar com a vida que é e está por vir. Sempre estes momentos de reflexão são produtivos do ponto de vista que me propiciam revisitar as memórias sobre a morte e redescobri-la e reconta-la para eu mesma e ir a cada dia aprendendo com elas, a morte e a vida. Obrigada.

  2. 2

    Selva Ribeiro said,

    Emocionante ouvir poemas sobre a morte soa natural como a vida e os pensamentos,é mágico.Obrigada,foi um prazer ouvi-lo.Parabéns Dr. Antonio Mourão Cavalcante

  3. 3

    Luciana de Castro Magalhães said,

    A palestra do Dr. AntÔnio Mourão Cavalcante é de uma plenitude e um encantamento dignos de destaque. A inteligência, o domínio e a serenidade com que trata de tema tão polêmico, com destaque para as mudanças engendradas no seio da nossa sociedade no tratamento dado à morte, vislumbram as características do processo capitalista de produção e seus mecanismos de cooptação. A morte se desnuda do sagrado, revestindo-se do manto de riqueza que revela o status do defunto, ao estilo das bolsas Louis Vuitton para as mulheres que perseguem a ascensão social com etiqueta.


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