Hugo Penteado – artigo para CPFL Cultura

Economia ecológica, uma nova visão | Com Hugo Penteado 

 

Muito já se falou sobre as ameaças das mudanças climáticas e sobre a urgência de se implementar um sistema de produção menos voraz e inconseqüente. O que mais impressiona dentro desse tema é que ele parece ser inesgotável. Não é um simples problema pontual que demanda poucas mudanças, mas sim a renovação de todo um estilo de vida e mudanças radicais nos padrões de consumo e produção. E isso não acontece do dia para a noite. É o que afirma Hugo Penteado, economista – chefe e estrategista de investimentos do ABN AMRO Asset Management. Especialista em economia ecológica, Penteado abriu nesta quinta-feira, dia 6 de novembro, o módulo O desafio da sustentabilidade na CPFL Cultura em Campinas.

“Um dia, um planeta disse ao outro: estou com uma coceira… E o outro respondeu: não se preocupe, é a humanidade” Hugo Penteado

A raça humana ameaçada
Enquanto o discurso que ecoa na mídia é de que a Terra está sendo destruída pelo homem, Hugo procura deixar claro, desde o início de sua exposição, que o que está ameaçada é a vida das pessoas e não o planeta. O ser humano surgiu na Terra no último segundo de sua história e já passou por diversas eras antes da existência desta espécie em sua superfície. “O ponto de partida para a sustentabilidade é reconhecer a nossa vulnerabilidade, a nossa dependência em relação ao planeta e todos os seus seres vivos… O nosso coração está batendo agora porque na Terra existem seres vivos, que são as plantas, que armazenam luz do Sol. Sem elas estaríamos mortos… O que representamos para esse planeta? Ele é muito maior que nós e que a nossa economia. Nós não estamos negociando com ele adequadamente”.
Interdependência
Somos absolutamente dependentes de todos os seres vivos. Somos apenas uma espécie animal a mais. “Charles Darwin dizia que nada nos diferencia dos demais animais. A gente tem que reconhecer este elo vivo do qual nós dependemos”. Hugo conta uma parábola para explicar a situação da humanidade:

“Nós, a humanidade, estamos em um carro em alta velocidade, felizes da vida. E, em 1960 a comunidade científica avisa: esta estrada tem visibilidade zero. Continuamos na mesma estrada e no mesmo carro. Em 1970, os cientistas fazem seu segundo alerta: além de ter visibilidade zero, esta estrada tem um precipício. Não sabemos onde ele está e nem qual é a profundidade dele, mas ele existe e chama-se resiliência da natureza e os processos que os ecossistemas desenvolvem para nos proteger. Em 1980, eles avisaram: o carro não tem mais freio. Agora só dá para tirar o pé do acelerador e esperar que ele desacerele antes de chegar ao precipício. Não dá mais para reverter uma série de processos que vamos começar a viver, infelizmente, nas próximas décadas. A história, agora é como a humanidade vai se adaptar às mudanças que ela mesma impingiu ao planeta e que ela vai viver, queira ou não”.
Inconseqüência
Vivemos em uma sociedade que não ataca as causas, só as conseqüências. O aquecimento global, por exemplo, é uma conseqüência. Entre as atividades inconseqüentes que ainda realizamos, Hugo cita a produção incomensurável de lixo. “Acreditamos no mito de jogar fora: não se pode jogar nada fora da Terra! Estamos transformando o planeta em uma lixeira. Tudo o que produzimos, consumidos ou descartamos vai para algum lugar”. 

A gente criou a economia do desperdício, do descarte imediato dos bens. Isso não pode acontecer. O plástico, por exemplo, mata milhões de animais no oceano. Eles comem aquilo pensando que é alimento. “O sistema econômico é linear – extrai, consome e descarta. Já a natureza é circular: não joga nada fora. O sistema econômico é degenerativo e enquanto a natureza é regenerativa. Precisamos nos adaptar!”

Outro dado alarmante citado por Hugo é o aumento populacional em todo o mundo. Populações dobram de tamanho, enquanto o planeta continua o mesmo. “Existe um problema sério com esse aumento populacional continuo. Quando eu nasci, em 1965, a população mundial era de 3 bilhões e do Brasil 80 milhões. Hoje, a população do mundo é de quase 7 bilhões e do Brasil é quase 180 milhões. Ainda hoje, a população humana aumenta em 200 mil pessoas por dia, já descontando os mortos. E ninguém encara esse problema!”

Esta população, além de dobrar de tamanho periodicamente, está continuamente aumentando seu padrão de consumo, demandando mais produtos, espaço e recursos. Aí é que mora o perigo, segundo Hugo. Segundo um dado da New Science Magazine, se todas as pessoas vivessem com o padrão de vida dos americanos, o planeta só conseguiria abrigar 200 milhões de pessoas.

O colapso
Colocamos a vida desse planeta no maior processo de extinção dos últimos anos. Hugo ressalta que existe um conflito entre o modelo econômico e os ecossistemas: onde a economia se desenvolve, os ecossistemas desaparecem. “Hoje, as pesquisas mostram que os países em desenvolvimento são os que estão mais provocando desmatamentos. Mas é claro! Os Estados Unidos e os países europeus já acabaram com todas as suas florestas!”

Outro ponto ressaltado pelo economista é a necessidade de derrubar o mito de que todas as benesses sociais vêm do crescimento. Ele afirma que o crescimento econômico historicamente beneficia as classes mais privilegiadas. “Precisamos acabar com esse modelo mental de que se há fome no mundo é porque falta produção de alimentos, e não porque jogamos um quarto de nossa comida no lixo e porque existe uma ineficiência gigante”.

Estamos à frente de um problema global, não mais local. “Não podemos mais pensar como eu e sim como nós”.

                                                                                                                     Fernanda Bellei

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