José Ottoni Outeiral – artigo para CPFL Cultura

CAFÉ FILOSÓFICO | Famílias na contemporaneidade | Com José Ottoni Outeiral 

 

A família no ritmo do mundo contemporâneo

O módulo de Ruth Cerqueira Leite foi inaugurado com exposição do psicanalista José Ottoni Outeiral sobre os novos paradigmas e comportamentos das relações familiares, dia 7 de novembro, na CPFL Cultura em Campinas.

 

Pensar é muito difícil, pensar dói. Pensar sempre foi transgressão. Pensar é fundamental”, José Ottoni Outeiral

 

 

Os laços familiares
O que mudou na infância, na adolescência e na família? Quais são os paradigmas que estão se alterando e sendo substituídos por outros? Ninguém melhor para explorar essas questões que José Ottoni Outeiral, psicanalista com prática clínica de quase 40 anos, que assistiu evoluções, involuções e alterações comportamentais. “Em 1971 foi quando atendi as primeiras crianças e adolescentes como médico… Nesses 37 anos pude testemunhar mudanças muito intensas e significativas no conjunto de paradigmas e valores envolvendo crianças, adolescentes e famílias”.

 

Entre as mudanças, Outeiral aponta um dado alarmante – segundo as últimas pesquisas do IBGE, a primeira causa de morte dos jovens no Brasil é o homicídio. A segunda causa são os acidentes, a terceira é o suicídio e só a quarta são doenças orgânicas. “O que se passa? O que acontece que nós, os adultos, as famílias e a sociedade recebem dessa forma as crianças e os adolescentes? Essa é uma pergunta que todos nós devemos nos fazer”. 

A globalização da família
Uma das características da urbanização está o abandono da vida simples, em comunidade, da vida familiar. Até 1950 cerca de 75% da população vivia em pequenas cidades. Nossa sociedade era dividida em grandes estruturas familiares. Avós, tios, primos e padrinhos conviviam e estavam, por vezes, inseridos em um mesmo sistema de produção. “Se a criança ou o adolescente ia ao armazém, o dono do armazém conhecia a história dele. Os marcos culturais de referencia eram estáveis. De tal forma que se a criança sofresse alguma dificuldade sempre havia um adulto ou um grupo de adultos para ajudar”, afirma o psicanalista. 

Hoje, 80% da população habita as grandes cidades. “O sujeito psíquico da contemporaneidade surge nos grandes espaços urbanos… Essa grande migração para os centros urbanos carregou a família a uma grande contradição, um paradoxo. Quanto maior a população, maior a multidão, maior o desamparo e isolamento. Costumamos encontrar nas grandes cidades estruturas familiares que se convencionou chamar de nuclear, formado por um casal e poucos filhos, distantes da família… Este é apenas um dos modelos, porque uma pesquisa mostra que em pelo menos um terço das famílias brasileiras o pai não se encontra em casa e a família e chefiada pela mãe”. 

Esta “carência” familiar, segundo Outeiral, tem sintomas aparentes. Um deles é o recente hábito de crianças e adolescentes chamarem seus professores e demais adultos de “tio” ou “tia”. Em sua interpretação, isso indica uma esperança de resgatar contatos familiares. Outro fenômeno são os atos falhos de jovens que chamam seus professores de mãe ou pai na sala de aula. 

 

“Adolescencialização”
Outra característica muito marcante nas famílias contemporâneas é a adolescencialização. As crianças são precocemente erotizadas. Meninas de 5 anos já se maquiam e algumas até já usam sutiãs com enchimento. Isso, segundo Outeiral, é apenas um dos sinais do que ele chama de “desinvenção” da infância. “Se pode desinventar a infância também acabando com o brincar. Isso é uma coisa muito séria, a palavra brincar vem do latim vínculo. Quando alguém brinca, não está apenas favorecendo o desenvolvimento psicomotor e cognitivo, mas também está criando vínculos, desenvolvendo a criatividade e a espontaneidade”. O prazer das crianças hoje, segundo ele, está em comprar o brinquedo, depois há um profundo tédio, que só acaba quando a criança adquire um outro brinquedo. “A sala de aula, seguindo o modelo da revolução industrial, expulsou o prazer das aulas e hoje nós temos pequenos ‘Charles Chaplins’ dos tempos modernos naquele aprendizado monótono, repetitivo, e que não pode concorrer nem com a multimídia que as crianças dispõem em casa. Os professores não sabem mais o que fazer”.

 

Se as crianças estão cada vez mais cedo entrando na adolescência, seus os pais estão desesperadamente tentando voltar a ela. Homens e mulheres sucumbem à pressão pela juventude eterna e procuram se vestir e comportar como adolescentes. “Adolescência é um fenômeno psicológico e social mais recente que a infância, que começa entre as duas grandes guerras, de 1918 e 1939, com o ingresso da mulher no mercado de trabalho e o surgimento das grandes cidades… Hoje, como se não bastasse invadir a infância, a adolescência invade o mundo adulto. A meta de muitos adultos é se tornar adolescente, tanto que já existe, no dicionário Oxford de língua inglesa, a palavra adultescente, que se refere aos adultos que tem comportamento de adolescente”.

 

Outerial diz que existem adultos que abrem mão de tal forma de sua autoridade que se comportam como crianças. Se eles têm filhos, então, esses são tratados como amigos e não com a autoridade de pais. “Ser pai e mãe também inclui a amizade, mas também vai muito além disso. É, através do exemplo, ajudar o outro a constituir sua identidade”.

 

 

Mudanças de paradigma
Além dos novos comportamentos individuais e familiares, a contemporaneidade traz consigo novos paradigmas. Outeiral destaca quatro deles:

 

1- O tempo 
O tempo subjetivo das crianças e dos adolescentes é muito mais rápido que o dos adultos. Estamos vivendo a geração delivery: tudo na mão na hora.

 

2- A cultura do descartável
Enquanto a modernidade cria o sujeito, a pós-modernidade cria a des-subjetivação, enquanto a modernidade enfatiza a historização a pós-modernidade cria a des-historização e as “pessoas-coisas”.

 

3- Banalização
Todo estimulo repetitivo, depois de um tempo, não é mais sentido por nós. Quando a violência faz parte do cotidiano, ela sofre a banalização. Toda a experiência traumática perde a capacidade se inserção na cadeia simbólica do psiquismo.

 

4- A ordem da narrativa
A narrativa da modernidade tinha inicio, meio e fim. A contemporaneidade rompe esta linearidade, há uma circularidade onde as coisas se repetem. Um exemplo deste novo formato narrativo, que está presente em nossa vida, é o Sertão Veredas, de Guimarães Rosa.

 

 

A utopia
Diante de mudanças vertiginosas, que não são necessariamente ruins, conforme explica Outeiral, crianças e adolescentes precisam contar com a família e a escola para sustentar seus sonhos, utopias e desejos. “Sonhar significa lidar com a parte mais inteligente de nossa mente. Em um sonho, nós construímos um roteiro, dirigimos, protagonizamos e assistimos. Não conseguimos criar nada tão criativo quando estamos acordados… Para estar vivo é preciso sonhar. Ter uma utopia é também necessário. Preciso seguir algo mesmo que nunca chegue até lá”.

 

Outro ponto importante é exercitar mais o ouvir e o ver, além de simplesmente escutar e olhar. Outeiral afirma que muitas pessoas não são vistas nem escutadas em casa, por isso eles procuram terapeutas, como ele, apenas para receberem atenção, serem ouvidos.

 

Esses espaços também têm outro papel necessário a ser cumprido – o ensinar a pensar. “Pensar é muito difícil. Pensar dói, assusta e surpreende o pensador. Pensar é fundamental… Acho que se os grupos familiares e nós, como sociedade, pudéssemos ter um sonho, uma utopia, um desejo, uma vida mais criativa, e pudéssemos preservar o mundo adulto, no sentido da autoridade daquele que é autor da sua fala… Se pudéssemos pensar, talvez isso contribuísse para que a barbárie desse logo lugar a civilização. E eu acredito que isso vai acontecer”. 

 

 

José Ottoni Outeiral é médico psiquiatra, psicanalista e psicoterapeuta de grupo. É membro titular e didata da SPP (Sociedade de Psicanálise de Pelotas) e membro Convidado da SBPRJ (Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro). É Full-member da International Psycho-Analitycal Association (IPA). É membro fundador do CEAPIA (Centro de Estudos e Pesquisa da Infância e Adolescência) e autor de livros como Adolescer, O Adolescente Borderline, Winnicott- Seminários Gaúchos e Cariocas. 

                                                                                                                Fernanda Bellei

8 Respostas so far »

  1. 1

    Crispascutti said,

    Fernanda, sua resenha da fala do Outeiral foi excelente, assisti ao café e adorei a palestra. É isso ai, temos que discutir o tema e tomar as rédias da sociedade. ão deixar que o jogo de interesses forje a família brasileira.

  2. 2

    Meu carinho e respeito…

  3. 3

    maria esther giacon said,

    Gostei muito e vou refletir…parabens

  4. 4

    ferbellei said,

    QUe bom que gostou, Maria Esther. Certamente é um assunto sobre o qual todos nós devemos refletir. Um abraço.

  5. 5

    Deisi Romano said,

    Realmente foi uma fala muito sensata e real. Seria muito interessante que nossos professores e pais a ouvissem para que pudessem, talvez, compreender melhor os adolescentes/alunos. Que pena que o dr. José Ottoni resida em Porto Alegre. Já havia pensado em convidá-lo para um conversa com nossos 1.800 Professores Mediadores que atuam na rede estadual de ensino. Quem sabe…..

  6. 6

    gostei muito da tua resenha
    um abraço
    J. Outeiral

  7. 7

    ferbellei said,

    E eu gostei muito de tua palestra! Obrigada pela visita ao meu blog. Grande abraço!
    Fernanda Bellei

  8. 8

    LêdaMaira said,

    Passando para deixar um carinhoso abraço.


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