Rachel Negrão – artigo para CPFL Cultura

Economia ecológica e o desafio da sustentabilidade | Com Rachel Negrão 

 

A crise econômica assola diversos países pelo mundo. E qual é a única saída apontada pelos chefes de Estado? Aumentar o consumo para que as engrenagens de produção não enferrujem. Mas como manter a saúde de um mundo que entra em colapso quando a produção e o consumo diminuem? É possível criar outra dinâmica econômica que não leve ao desaparecimento de diversas espécies, inclusive da espécie humana? A economista Rachel Negrão afirmou que sim, na palestra realizada na CPFL Cultura em Campinas, dia 13 de novembro. Segundo ela, tudo é uma questão de mudança de atitude e de perspectiva.

Crise civilizacional
“Tenho certa resistência em relação a economia neo-clássica e tradicional, que é a economia que rege o mercado atual, que deve estar tendo a melhor oportunidade do mundo de se reestruturar”. A economista afirma que, para agarrar esta oportunidade, é preciso aceitar certos desafios. “Esses desafios estão relacionados com a nossa maneira de olhar para o mundo e com todas as manifestações da crise, sejam elas econômicas, tecnológicas, científicas, políticas, religiosas, éticas etc. Todas elas têm um fator determinante, que é o nosso jeito de estar no mundo, de pensar. E isso condiciona todas as nossas possibilidades de estudar esta crise que vivemos hoje e que, em resumo, pode ser chamada de crise civilizacional”. 

Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou. É preciso ir mais longe – Albert Einstein

Rachel cita a célebre frase de Einstein para afirmar que as pessoas ainda se comportam como míopes, isto é, só demonstram amor, compaixão e cuidado aos que estão próximos, ignorando a complexidade do mundo. “Dentro disso que Einstein chamou de miopia da consciência, nós não conseguimos nos enxergar como parte de uma realidade maior”.

Interações
Após convidar o público a enxergar interações em diversos espaços, Rachel cita algumas relações que não são facilmente percebidas, mas que fazem toda a diferença na dinâmica de nossa vida:

 

“Existem microorganismos nas raízes das árvores que retiram do solo os nutrientes que as árvores precisa para viver. Sem eles, a vida de algumas árvores seria impossível… A floresta Amazônica é indispensável para a manutenção do regime das chuvas e do equilíbrio climático no sul e sudeste do país”.

 

 

Esses pequenos detalhes do fluxo da vida de nosso planeta, segundo Rachel, não são levados em consideração, causando, assim, desequilíbrios que, pouco a pouco, levam a grandes desastres ecológicos. A economista afirma ainda que nosso sistema econômico não é apenas inconseqüente, mas também incoerente. Ela traz dados alarmantes que ilustraram este desequilibro:

 

– 80% da população não faz parte do mercado de consumo

 

– 4 bilhões de pessoas no mundo vivem com menos de US$ 2 por dia.

 

– 70% do lixo no Brasil é disposto em locais não apropriados

 

– 25% da população consome 75% da energia primária e 60% dos alimentos produzidos no mundo. 

 

Pensamento sistêmico
“Devemos nos perguntar: será que eu faço parte desta realidade? Os pingüins às vezes chegam até nossas praias aqui no sudeste… Mas além disso, que outra forma de ligação existem entre nós e este ambiente?”.

 

Após uma provocação para que o público enxergue as interações “ocultas” da natureza, a economista fala da necessidade de se trabalhar com o pensamento sistêmico que, segundo ela, é a única maneira de enxergar o mundo. O pensamento sistêmico junta os diferentes modos de pensar, opõe-se aos mecanismos reducionistas e simplificadores que separam tudo . “Nós só enxergamos causa e efeito, como se entre elas não existisse mais nada. Precisamos substituir este modelo de raciocínio. O pensamento sistêmico substitui o ‘ou’ pelo ‘e’”.

 

Rachel finaliza com um trecho de discurso do economista Victor Lebow, crítico do consumismo americano: 

“Nossa gigantesca economia produtiva exige que façamos do consumo nosso meio de vida, que convertamos a compra e o uso de bens em rituais, que procuremos nossa satisfação espiritual, nossa auto-satisfação no consumo. Precisamos que coisas sejam consumidas, queimadas, gastas, substituídas e descartadas, em um ritmo cada vez mais acelerado”.

Fernanda Bellei

  

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