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Web 2.0 – a criação de um universo paralelo

A tão sonhada democratização da comunicação começa a se tornar cada vez mais real e a ganhar cores inesperadas. Tudo isso está acontecendo em um mundo virtual, que está se tornando a casa, o escritório e o espaço de entretenimento de muitas pessoas: a internet. Este fenômeno se tornou possível a partir de uma rápida mutação nas características da World Wide Web, que deixou de ser apenas uma revolucionária ferramenta de buscas, pesquisas, comunicação – e vitrine de empresas – para se tornar um ambiente de interações, de convívio, de manifestações, compartilhamentos… Enfim, de infinitas possibilidades.

Esta mutação é a passagem da web 1.0 para a sua segunda etapa: a web 2.0. Se antes a rede girava em torno do comércio eletrônico, hoje, sua figura central é você, sou eu, são eles, somos nós. Com a web 2.0, o usuário pode, cada vez mais, interferir, interagir, modificar e adaptar suas páginas e aplicações.

Neste espaço cada vez mais democrático, qualquer pessoa que possua um computador e uma conexão com velocidade razoável pode mergulhar, literalmente, em um novo mundo, que muda em velocidade vertiginosa.

Esta mudança começou com a criação das redes sociais, nos anos de 2003 e 2004. Sites como o facebook, orkut e tagged funcionam como vitrines de usuários, onde todos podem ver e serem vistos. Em pouco tempo, milhões de pessoas começaram a participar dessas redes. Hoje, é raro encontrar algum internauta que não esteja em pelo menos uma delas.

Outros exemplos de sites baseados na colaboração de usuário são o youtube, a Wikipedia e o Flickr. O primeiro permite que o usuário “lance” para o mundo vídeos que ele mesmo produziu. O segundo é uma biblioteca virtual, cujo conteúdo é escrito e postado por seus usuários. O terceiro é uma espécie de “album de fotos” virtual, onde qualquer pessoa posta suas imagens.

Mas, como tudo tem um preço, os sites também precisam de “receita” para sobreviver. O Wikipedia, por exemplo, conta com doações de seus usuários para manter seus serviços de matutenção, hospedagem e edição de conteúdo. Aqueles que abrem espaço para a publicidade conseguem ser auto-sustentáveis.

Em meio a tanto entusiasmo e novidades, também surgem as dúvidas e críticas: Quem cuida dessa terra sem leis? Qual é a segurança desse meio? Como posso confiar em informações postadas por qualquer um? Ou que podem ser maliciosamente editadas por usuários mais cruéis e habilidosos?

Mas os internautas mais apaixonados defendem o meio com unhas e dentes. Garantem que conseguem se manter “seguramente” informados por meio de páginas confiáveis, e que se cria um tipo de fidelidade entre emissores e receptores. Afinal, em nosso “mundo sensível”, também estamos passíveis de inúmeros riscos.

Enquanto alguns discutem, outros agem. Inúmeros internautas encontraram em suas páginas sociais um porto seguro, onde podem ganhar dinheiro, amigos e até uma identidade. Não são poucas as pessoas que começaram relacionamentos bem sucedidos ou que ficaram ricos, através da web.

Exemplo disso é o Mr.BabyMan, (Andrew Sorcini no “mundo real”), o usuário mais popular do site digg, que dedica entre três a quarto horas diárias para enviar noticias para seu site, e que já chegou a receber mais visitas do que o site do jornal New York Times. Questionado sobre como é ser um “digger”, Andrew garante que vive a vida como qualquer outra pessoa. E ele está certo. A cada dia, mais e mais pessoas se mudam para este novo mundo chamado web 2.0.

Ferbellei

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Maria Rita Kehl – artigo para CPFL Cultura

O que resta da (mínima) diferença? | Com Maria Rita Kehl     

 

 

“As mesmas mulheres que reivindicaram a igualdade e a liberdade sexual, e que se deram o direito de abordar um homem, ainda ficam chocadas quando os homens não ligam no dia seguinte… A confusão está tomando conta dos dois lados.” – Maria Rita Kehl 

 Os tempos mudaram. Se até poucas décadas atrás as mulheres ainda tinham uma vida submissa a seus respectivos pais e maridos e só podiam habitar a esfera doméstica, hoje elas ganharam o mundo, a liberdade e as responsabilidades de quem participa da vida pública. Mas como esta mudança afetou a relação homem – mulher? A conquista feminina foi tranqüilamente assimilada pelos homens ou ainda restam pontos de resistências? Ainda existem diferenças a serem superadas ou assimiladas? A psicanalista Maria Rita Kehl lança questões e propõe análises sobre este complexo universo dos gêneros no Café Filosófico CPFL em São Paulo.

Crimes passionais
Maria Rita inicia sua exposição com um dado alarmante – 70% das mulheres assassinadas são vitimas de seus companheiros ou ex-companheiros. Os “feminicídios” e outras formas de violência contra as mulheres seriam, segundo análise da psicanalista, a prova concreta de que o fato de as mulheres terem se tornado senhoras de seus desejos e se sentirem livres para trocarem de parceiros não foi adequadamente assimilada pelos homens.

Para ilustrar sua conclusão, a psicanalista cita o polêmico caso do jovem que assassinou sua ex-namorada, Heloá Pimentel, na cidade de Santo André, em outubro deste ano. A tragédia chama atenção porque não só retrata a revolta de um homem que foi deixado pela companheira, mas marca toda uma conivência social com o seqüestrador, pois seu crime era passional. “Os policiais tiveram inúmeras chances de atirar contra o seqüestrador, Lindemberg Alves, mas não atiraram sob a justificativa de que ele seqüestrava por amor, não por dinheiro. É como se entendessem e autorizassem o comportamento dele”. 

A atitude masculina de não conformismo diante de uma traição ou abandono da relação por parte da mulher é, segundo Maria Rita, um indício de que os homens vêem em sua família seu último reduto de pleno “reinado”. “Vemos inúmeros homens que agem violentamente com suas companheiras que querem terminar um relacionamento. Eu faço uma suposição: será que a família não se tornou o último reduto deste homem que não tem mais poder absoluto na sociedade? Não haveria ainda a existência daquele pensamento de que as mulheres são propriedade dos homens?”

O que pode querer uma mulher?
Se a psicanálise diz, entre outras coisas, que o desejo intrínseco do homem é ser o macho dominante, definir as vontades femininas parece ser um pouco mais complicado. Maria Rita cita a célebre frase de Sigmund Freud que, depois de 30 anos investigando os desejos e o inconsciente, declarou que não saberia dizer o que quer uma mulher. Mas será que as mulheres sempre tiveram espaço para “querer” alguma coisa? “O que poderia querer uma mulher até a primeira metade do século 19? O que cabia a ela querer era basicamente o que seu marido poderia lhe oferecer”, afirma. Esta parece ser a mudança fundamental no convívio homem-mulher ao longo das décadas: Se antes elas precisariam se conformar com o que lhes era oferecido, hoje elas têm perfeita autonomia para conquistar o que quiserem.

A mulher castrada
O mito do medo da castração, que persegue os homens desde a tenra infância, parece ser um ponto neutro para as mulheres. A mesma menina que inveja o falo, símbolo da completude e da plenitude narcísica, tem uma ousadia maior diante da vida, pois sente que não tem nada a perder. “A postura feminina é sempre mais ousada que a masculina. A mulher age como quem não tem nada a perder, por isso ela vai para a vida com um certo atrevimento”.

A inércia da cultura
Ainda que as mudanças no comportamento feminino e da atuação das mulheres em um mundo que era essencialmente masculino tenham sido radicais, Maria Rita explica que elas ainda não foram completamente assimiladas pela sociedade, nem mesmo pelas mulheres, que ainda caem em contradição. “As mesmas mulheres que reivindicaram a igualdade e a liberdade sexual, e que se deram o direito de abordar um homem, quando ele lhes interessa, ainda demonstram um comportamento do século passado: elas ainda ficam chocadas quando os homens não ligam no dia seguinte! Isso mostra que não são apenas os homens que estão confusos com o novo comportamento feminino. A confusão está tomando conta dos dois lados”.

A psicanalista explica este comportamento como o de uma pessoa que não quer perder nada de lado algum. As mulheres querem ter liberdade sexual, mas ainda querem ser amadas e levadas ao altar como antigamente. “Se em uma balada ela se permite ser a predadora, no outro dia ela se comporta como a garotinha virgem, que quer receber um telefonema”.

Outro exemplo da inércia da cultura em acompanhar as mudanças é a cobrança interna e externa que algumas mulheres ainda sofrem por não terem tempo suficiente para se dedicarem aos filhos e a casa como antigamente. “As mulheres ainda se comparam com suas mães e avós, e se cobram por não serem tão dedicadas como elas eram. Essa cobrança é enorme e atinge grande parte das mulheres”.

A mulher contemporânea
“Parece que está surgindo uma nova geração de mulheres que não levam o falo a sério. Elas brincam com o fato de serem castradas”, afirma Maria Rita. “Talvez esta seja a geração que não se preocupa mais com a mínima diferença. Elas já nasceram em um mundo em que as mulheres têm seu espaço garantido. Elas aceitam que têm uma diferença em seu corpo, aceitam a castração. São as moças que ocupam uma posição feminina na parceria erótica e manejam isso com um certo triunfo”. 

Enquanto as feministas das décadas de 60 e 70 adotavam uma postura masculina para conquistar seu espaço, fazendo como se possuíssem o falo, as mulheres contemporâneas vivem a feminilidade sem constrangimentos. 

Mas antes de glorificar a nova geração, a psicanalista faz uma ressalva – as mulheres ganham um ponto positivo por estarem brincando com o fato de serem castradas, mas elas precisam saber até que estão brincando e não entrarem em uma armadilha. Ela dá o exemplo das “meninas do funk” dos bailes das noites cariocas, em que a sexualidade é exacerbada e as mulheres são classificadas como cachorras, preparadas, etc. “Quando aquelas meninas se permitem experimentar a submissão, se auto-intitulam de cachorras e se permitem ser usadas pelos homens, elas podem pensar que estão no controle da situação, mas talvez não estejam”.

Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC-SP com a teseDeslocamentos do Feminino (Editora Imago, Rio, 2008, 2ª. Edição). Autora de artigos para jornais e revistas desde 1974, e de diversos livros sobre psicanálise, cultura, sociedade, entre os quais: Sobre ética e psicanálise(Companhia das Letras), Ressentimento (Casa do Psicólogo) Videologias(Boitempo – em parceria com Eugênio Bucci). A sair, também pela editora Boitempo, O tempo e o cão: a atualidade das depressões

Fernanda Bellei

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Rachel Negrão – artigo para CPFL Cultura

Economia ecológica e o desafio da sustentabilidade | Com Rachel Negrão 

 

A crise econômica assola diversos países pelo mundo. E qual é a única saída apontada pelos chefes de Estado? Aumentar o consumo para que as engrenagens de produção não enferrujem. Mas como manter a saúde de um mundo que entra em colapso quando a produção e o consumo diminuem? É possível criar outra dinâmica econômica que não leve ao desaparecimento de diversas espécies, inclusive da espécie humana? A economista Rachel Negrão afirmou que sim, na palestra realizada na CPFL Cultura em Campinas, dia 13 de novembro. Segundo ela, tudo é uma questão de mudança de atitude e de perspectiva.

Crise civilizacional
“Tenho certa resistência em relação a economia neo-clássica e tradicional, que é a economia que rege o mercado atual, que deve estar tendo a melhor oportunidade do mundo de se reestruturar”. A economista afirma que, para agarrar esta oportunidade, é preciso aceitar certos desafios. “Esses desafios estão relacionados com a nossa maneira de olhar para o mundo e com todas as manifestações da crise, sejam elas econômicas, tecnológicas, científicas, políticas, religiosas, éticas etc. Todas elas têm um fator determinante, que é o nosso jeito de estar no mundo, de pensar. E isso condiciona todas as nossas possibilidades de estudar esta crise que vivemos hoje e que, em resumo, pode ser chamada de crise civilizacional”. 

Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou. É preciso ir mais longe – Albert Einstein

Rachel cita a célebre frase de Einstein para afirmar que as pessoas ainda se comportam como míopes, isto é, só demonstram amor, compaixão e cuidado aos que estão próximos, ignorando a complexidade do mundo. “Dentro disso que Einstein chamou de miopia da consciência, nós não conseguimos nos enxergar como parte de uma realidade maior”.

Interações
Após convidar o público a enxergar interações em diversos espaços, Rachel cita algumas relações que não são facilmente percebidas, mas que fazem toda a diferença na dinâmica de nossa vida:

 

“Existem microorganismos nas raízes das árvores que retiram do solo os nutrientes que as árvores precisa para viver. Sem eles, a vida de algumas árvores seria impossível… A floresta Amazônica é indispensável para a manutenção do regime das chuvas e do equilíbrio climático no sul e sudeste do país”.

 

 

Esses pequenos detalhes do fluxo da vida de nosso planeta, segundo Rachel, não são levados em consideração, causando, assim, desequilíbrios que, pouco a pouco, levam a grandes desastres ecológicos. A economista afirma ainda que nosso sistema econômico não é apenas inconseqüente, mas também incoerente. Ela traz dados alarmantes que ilustraram este desequilibro:

 

– 80% da população não faz parte do mercado de consumo

 

– 4 bilhões de pessoas no mundo vivem com menos de US$ 2 por dia.

 

– 70% do lixo no Brasil é disposto em locais não apropriados

 

– 25% da população consome 75% da energia primária e 60% dos alimentos produzidos no mundo. 

 

Pensamento sistêmico
“Devemos nos perguntar: será que eu faço parte desta realidade? Os pingüins às vezes chegam até nossas praias aqui no sudeste… Mas além disso, que outra forma de ligação existem entre nós e este ambiente?”.

 

Após uma provocação para que o público enxergue as interações “ocultas” da natureza, a economista fala da necessidade de se trabalhar com o pensamento sistêmico que, segundo ela, é a única maneira de enxergar o mundo. O pensamento sistêmico junta os diferentes modos de pensar, opõe-se aos mecanismos reducionistas e simplificadores que separam tudo . “Nós só enxergamos causa e efeito, como se entre elas não existisse mais nada. Precisamos substituir este modelo de raciocínio. O pensamento sistêmico substitui o ‘ou’ pelo ‘e’”.

 

Rachel finaliza com um trecho de discurso do economista Victor Lebow, crítico do consumismo americano: 

“Nossa gigantesca economia produtiva exige que façamos do consumo nosso meio de vida, que convertamos a compra e o uso de bens em rituais, que procuremos nossa satisfação espiritual, nossa auto-satisfação no consumo. Precisamos que coisas sejam consumidas, queimadas, gastas, substituídas e descartadas, em um ritmo cada vez mais acelerado”.

Fernanda Bellei

  

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José Ottoni Outeiral – artigo para CPFL Cultura

CAFÉ FILOSÓFICO | Famílias na contemporaneidade | Com José Ottoni Outeiral 

 

A família no ritmo do mundo contemporâneo

O módulo de Ruth Cerqueira Leite foi inaugurado com exposição do psicanalista José Ottoni Outeiral sobre os novos paradigmas e comportamentos das relações familiares, dia 7 de novembro, na CPFL Cultura em Campinas.

 

Pensar é muito difícil, pensar dói. Pensar sempre foi transgressão. Pensar é fundamental”, José Ottoni Outeiral

 

 

Os laços familiares
O que mudou na infância, na adolescência e na família? Quais são os paradigmas que estão se alterando e sendo substituídos por outros? Ninguém melhor para explorar essas questões que José Ottoni Outeiral, psicanalista com prática clínica de quase 40 anos, que assistiu evoluções, involuções e alterações comportamentais. “Em 1971 foi quando atendi as primeiras crianças e adolescentes como médico… Nesses 37 anos pude testemunhar mudanças muito intensas e significativas no conjunto de paradigmas e valores envolvendo crianças, adolescentes e famílias”.

 

Entre as mudanças, Outeiral aponta um dado alarmante – segundo as últimas pesquisas do IBGE, a primeira causa de morte dos jovens no Brasil é o homicídio. A segunda causa são os acidentes, a terceira é o suicídio e só a quarta são doenças orgânicas. “O que se passa? O que acontece que nós, os adultos, as famílias e a sociedade recebem dessa forma as crianças e os adolescentes? Essa é uma pergunta que todos nós devemos nos fazer”. 

A globalização da família
Uma das características da urbanização está o abandono da vida simples, em comunidade, da vida familiar. Até 1950 cerca de 75% da população vivia em pequenas cidades. Nossa sociedade era dividida em grandes estruturas familiares. Avós, tios, primos e padrinhos conviviam e estavam, por vezes, inseridos em um mesmo sistema de produção. “Se a criança ou o adolescente ia ao armazém, o dono do armazém conhecia a história dele. Os marcos culturais de referencia eram estáveis. De tal forma que se a criança sofresse alguma dificuldade sempre havia um adulto ou um grupo de adultos para ajudar”, afirma o psicanalista. 

Hoje, 80% da população habita as grandes cidades. “O sujeito psíquico da contemporaneidade surge nos grandes espaços urbanos… Essa grande migração para os centros urbanos carregou a família a uma grande contradição, um paradoxo. Quanto maior a população, maior a multidão, maior o desamparo e isolamento. Costumamos encontrar nas grandes cidades estruturas familiares que se convencionou chamar de nuclear, formado por um casal e poucos filhos, distantes da família… Este é apenas um dos modelos, porque uma pesquisa mostra que em pelo menos um terço das famílias brasileiras o pai não se encontra em casa e a família e chefiada pela mãe”. 

Esta “carência” familiar, segundo Outeiral, tem sintomas aparentes. Um deles é o recente hábito de crianças e adolescentes chamarem seus professores e demais adultos de “tio” ou “tia”. Em sua interpretação, isso indica uma esperança de resgatar contatos familiares. Outro fenômeno são os atos falhos de jovens que chamam seus professores de mãe ou pai na sala de aula. 

 

“Adolescencialização”
Outra característica muito marcante nas famílias contemporâneas é a adolescencialização. As crianças são precocemente erotizadas. Meninas de 5 anos já se maquiam e algumas até já usam sutiãs com enchimento. Isso, segundo Outeiral, é apenas um dos sinais do que ele chama de “desinvenção” da infância. “Se pode desinventar a infância também acabando com o brincar. Isso é uma coisa muito séria, a palavra brincar vem do latim vínculo. Quando alguém brinca, não está apenas favorecendo o desenvolvimento psicomotor e cognitivo, mas também está criando vínculos, desenvolvendo a criatividade e a espontaneidade”. O prazer das crianças hoje, segundo ele, está em comprar o brinquedo, depois há um profundo tédio, que só acaba quando a criança adquire um outro brinquedo. “A sala de aula, seguindo o modelo da revolução industrial, expulsou o prazer das aulas e hoje nós temos pequenos ‘Charles Chaplins’ dos tempos modernos naquele aprendizado monótono, repetitivo, e que não pode concorrer nem com a multimídia que as crianças dispõem em casa. Os professores não sabem mais o que fazer”.

 

Se as crianças estão cada vez mais cedo entrando na adolescência, seus os pais estão desesperadamente tentando voltar a ela. Homens e mulheres sucumbem à pressão pela juventude eterna e procuram se vestir e comportar como adolescentes. “Adolescência é um fenômeno psicológico e social mais recente que a infância, que começa entre as duas grandes guerras, de 1918 e 1939, com o ingresso da mulher no mercado de trabalho e o surgimento das grandes cidades… Hoje, como se não bastasse invadir a infância, a adolescência invade o mundo adulto. A meta de muitos adultos é se tornar adolescente, tanto que já existe, no dicionário Oxford de língua inglesa, a palavra adultescente, que se refere aos adultos que tem comportamento de adolescente”.

 

Outerial diz que existem adultos que abrem mão de tal forma de sua autoridade que se comportam como crianças. Se eles têm filhos, então, esses são tratados como amigos e não com a autoridade de pais. “Ser pai e mãe também inclui a amizade, mas também vai muito além disso. É, através do exemplo, ajudar o outro a constituir sua identidade”.

 

 

Mudanças de paradigma
Além dos novos comportamentos individuais e familiares, a contemporaneidade traz consigo novos paradigmas. Outeiral destaca quatro deles:

 

1- O tempo 
O tempo subjetivo das crianças e dos adolescentes é muito mais rápido que o dos adultos. Estamos vivendo a geração delivery: tudo na mão na hora.

 

2- A cultura do descartável
Enquanto a modernidade cria o sujeito, a pós-modernidade cria a des-subjetivação, enquanto a modernidade enfatiza a historização a pós-modernidade cria a des-historização e as “pessoas-coisas”.

 

3- Banalização
Todo estimulo repetitivo, depois de um tempo, não é mais sentido por nós. Quando a violência faz parte do cotidiano, ela sofre a banalização. Toda a experiência traumática perde a capacidade se inserção na cadeia simbólica do psiquismo.

 

4- A ordem da narrativa
A narrativa da modernidade tinha inicio, meio e fim. A contemporaneidade rompe esta linearidade, há uma circularidade onde as coisas se repetem. Um exemplo deste novo formato narrativo, que está presente em nossa vida, é o Sertão Veredas, de Guimarães Rosa.

 

 

A utopia
Diante de mudanças vertiginosas, que não são necessariamente ruins, conforme explica Outeiral, crianças e adolescentes precisam contar com a família e a escola para sustentar seus sonhos, utopias e desejos. “Sonhar significa lidar com a parte mais inteligente de nossa mente. Em um sonho, nós construímos um roteiro, dirigimos, protagonizamos e assistimos. Não conseguimos criar nada tão criativo quando estamos acordados… Para estar vivo é preciso sonhar. Ter uma utopia é também necessário. Preciso seguir algo mesmo que nunca chegue até lá”.

 

Outro ponto importante é exercitar mais o ouvir e o ver, além de simplesmente escutar e olhar. Outeiral afirma que muitas pessoas não são vistas nem escutadas em casa, por isso eles procuram terapeutas, como ele, apenas para receberem atenção, serem ouvidos.

 

Esses espaços também têm outro papel necessário a ser cumprido – o ensinar a pensar. “Pensar é muito difícil. Pensar dói, assusta e surpreende o pensador. Pensar é fundamental… Acho que se os grupos familiares e nós, como sociedade, pudéssemos ter um sonho, uma utopia, um desejo, uma vida mais criativa, e pudéssemos preservar o mundo adulto, no sentido da autoridade daquele que é autor da sua fala… Se pudéssemos pensar, talvez isso contribuísse para que a barbárie desse logo lugar a civilização. E eu acredito que isso vai acontecer”. 

 

 

José Ottoni Outeiral é médico psiquiatra, psicanalista e psicoterapeuta de grupo. É membro titular e didata da SPP (Sociedade de Psicanálise de Pelotas) e membro Convidado da SBPRJ (Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro). É Full-member da International Psycho-Analitycal Association (IPA). É membro fundador do CEAPIA (Centro de Estudos e Pesquisa da Infância e Adolescência) e autor de livros como Adolescer, O Adolescente Borderline, Winnicott- Seminários Gaúchos e Cariocas. 

                                                                                                                Fernanda Bellei

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Hugo Penteado – artigo para CPFL Cultura

Economia ecológica, uma nova visão | Com Hugo Penteado 

 

Muito já se falou sobre as ameaças das mudanças climáticas e sobre a urgência de se implementar um sistema de produção menos voraz e inconseqüente. O que mais impressiona dentro desse tema é que ele parece ser inesgotável. Não é um simples problema pontual que demanda poucas mudanças, mas sim a renovação de todo um estilo de vida e mudanças radicais nos padrões de consumo e produção. E isso não acontece do dia para a noite. É o que afirma Hugo Penteado, economista – chefe e estrategista de investimentos do ABN AMRO Asset Management. Especialista em economia ecológica, Penteado abriu nesta quinta-feira, dia 6 de novembro, o módulo O desafio da sustentabilidade na CPFL Cultura em Campinas.

“Um dia, um planeta disse ao outro: estou com uma coceira… E o outro respondeu: não se preocupe, é a humanidade” Hugo Penteado

A raça humana ameaçada
Enquanto o discurso que ecoa na mídia é de que a Terra está sendo destruída pelo homem, Hugo procura deixar claro, desde o início de sua exposição, que o que está ameaçada é a vida das pessoas e não o planeta. O ser humano surgiu na Terra no último segundo de sua história e já passou por diversas eras antes da existência desta espécie em sua superfície. “O ponto de partida para a sustentabilidade é reconhecer a nossa vulnerabilidade, a nossa dependência em relação ao planeta e todos os seus seres vivos… O nosso coração está batendo agora porque na Terra existem seres vivos, que são as plantas, que armazenam luz do Sol. Sem elas estaríamos mortos… O que representamos para esse planeta? Ele é muito maior que nós e que a nossa economia. Nós não estamos negociando com ele adequadamente”.
Interdependência
Somos absolutamente dependentes de todos os seres vivos. Somos apenas uma espécie animal a mais. “Charles Darwin dizia que nada nos diferencia dos demais animais. A gente tem que reconhecer este elo vivo do qual nós dependemos”. Hugo conta uma parábola para explicar a situação da humanidade:

“Nós, a humanidade, estamos em um carro em alta velocidade, felizes da vida. E, em 1960 a comunidade científica avisa: esta estrada tem visibilidade zero. Continuamos na mesma estrada e no mesmo carro. Em 1970, os cientistas fazem seu segundo alerta: além de ter visibilidade zero, esta estrada tem um precipício. Não sabemos onde ele está e nem qual é a profundidade dele, mas ele existe e chama-se resiliência da natureza e os processos que os ecossistemas desenvolvem para nos proteger. Em 1980, eles avisaram: o carro não tem mais freio. Agora só dá para tirar o pé do acelerador e esperar que ele desacerele antes de chegar ao precipício. Não dá mais para reverter uma série de processos que vamos começar a viver, infelizmente, nas próximas décadas. A história, agora é como a humanidade vai se adaptar às mudanças que ela mesma impingiu ao planeta e que ela vai viver, queira ou não”.
Inconseqüência
Vivemos em uma sociedade que não ataca as causas, só as conseqüências. O aquecimento global, por exemplo, é uma conseqüência. Entre as atividades inconseqüentes que ainda realizamos, Hugo cita a produção incomensurável de lixo. “Acreditamos no mito de jogar fora: não se pode jogar nada fora da Terra! Estamos transformando o planeta em uma lixeira. Tudo o que produzimos, consumidos ou descartamos vai para algum lugar”. 

A gente criou a economia do desperdício, do descarte imediato dos bens. Isso não pode acontecer. O plástico, por exemplo, mata milhões de animais no oceano. Eles comem aquilo pensando que é alimento. “O sistema econômico é linear – extrai, consome e descarta. Já a natureza é circular: não joga nada fora. O sistema econômico é degenerativo e enquanto a natureza é regenerativa. Precisamos nos adaptar!”

Outro dado alarmante citado por Hugo é o aumento populacional em todo o mundo. Populações dobram de tamanho, enquanto o planeta continua o mesmo. “Existe um problema sério com esse aumento populacional continuo. Quando eu nasci, em 1965, a população mundial era de 3 bilhões e do Brasil 80 milhões. Hoje, a população do mundo é de quase 7 bilhões e do Brasil é quase 180 milhões. Ainda hoje, a população humana aumenta em 200 mil pessoas por dia, já descontando os mortos. E ninguém encara esse problema!”

Esta população, além de dobrar de tamanho periodicamente, está continuamente aumentando seu padrão de consumo, demandando mais produtos, espaço e recursos. Aí é que mora o perigo, segundo Hugo. Segundo um dado da New Science Magazine, se todas as pessoas vivessem com o padrão de vida dos americanos, o planeta só conseguiria abrigar 200 milhões de pessoas.

O colapso
Colocamos a vida desse planeta no maior processo de extinção dos últimos anos. Hugo ressalta que existe um conflito entre o modelo econômico e os ecossistemas: onde a economia se desenvolve, os ecossistemas desaparecem. “Hoje, as pesquisas mostram que os países em desenvolvimento são os que estão mais provocando desmatamentos. Mas é claro! Os Estados Unidos e os países europeus já acabaram com todas as suas florestas!”

Outro ponto ressaltado pelo economista é a necessidade de derrubar o mito de que todas as benesses sociais vêm do crescimento. Ele afirma que o crescimento econômico historicamente beneficia as classes mais privilegiadas. “Precisamos acabar com esse modelo mental de que se há fome no mundo é porque falta produção de alimentos, e não porque jogamos um quarto de nossa comida no lixo e porque existe uma ineficiência gigante”.

Estamos à frente de um problema global, não mais local. “Não podemos mais pensar como eu e sim como nós”.

                                                                                                                     Fernanda Bellei

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Antonio Mourão Cavalcante – artigo para CPFL Cultura

CAFÉ FILOSÓFICO | A morte como encantamento | Com Antonio Mourão Cavalcante 

 

Ofélia, a namorada suicida de Hamlet, flutuando serenamente em águas plácidas, rodeada de flores e coberta por musgos… Eis uma bela imagem da morte! Mas a morte pode ser bela? É possível encontrar alguma beleza neste momento em que as funções vitais cessam e o corpo começa a perecer?

 

Nossa polêmica relação com a morte pode ser analisada de vários pontos de vista, sob a luz de inúmeras disciplinas. O medo, a transcendência, os cuidados paliativos, o suporte familiar… Para cada detalhe que deve ser cuidado nessa transição, há um profissional responsável. Mas o que se espera que um médico psiquiatra diga sobre ela? Se esse médico for Antonio Mourão Cavalcante, seu discurso terá mais poesia do que trivialidades e fórmulas prontas para justificar o injustificável.

 

 

A morte como encantamento
A relação paciente-médico é ainda mais delicada quando uma vida está na fase terminal.O exercício de lidar com a morte nãoé fácil e, por isso, ela costuma ser negada, conforme conta Mourão. “Quando um paciente pergunta ao seu médico:Eu posso morrer doutor? – O médico geralmente responde:Imagina, isso nunca vai acontecer contigo! – Há uma resistência. O médico nunca admite que seu paciente é mortal”.

 

Outro ponto polêmico enfrentado pelos profissionais da saúde é definir o momento da morte. “Em algumas épocas da humanidade morrer era deixar de respirar e o coração deixar de bater. Hoje se fala de morte encefálica. Quando o paciente não tem atividade cerebral, ele está morto para a medicina. O difícil é convencer a família de que seu ente querido está morto, quando ele ainda está vendo os sinais de batimento”, comenta.

 

Durante uma de suas passagens por um hospital, Mourão fala do momento em que testemunhou uma equipe médica sendo “vencida” pela morte. Era uma equipe formada por uma médica, duas enfermeiras e uma assistente de enfermagem, realizando uma massagem cardíaca em uma paciente. “Após inúmeras tentativas de reanimar esta paciente, houve um determinado momento em que a médica diz – Pára, desliga! – O que fez esta médica tomar esta decisão? Lá estava a mesma pessoa, o mesmo sangue, o mesmo coração, os mesmos olhos …O que foi que aconteceu? Como admitir que a morte chegou? Este é um dos grandes mistérios da morte, aquela que ninguém sabe para onde é e como é”.

 

 

O velho lençol

 

O velho lençol da enfermaria guarda muitas histórias. 
Apresenta-se meio desbotado,
experimentou noites de dor e silêncio,
acalentou frio e medo.
Noutras circunstâncias, aparou vômitos, fezes e sangue.
O velho lençol, hoje, parece fatigado,
Tem manchas e descosturas.
Nestas noites indômitas, 
muitos gemidos contidos.
No último serviço fez-se embrulho, pacote lacrado, fechado, envolvendo um corpo inerte que era vida.
O velho lençol da enfermaria tem a sabedoria do vivido:
nem chora, nem reclama. Acha que é destino.

Antonio Mourão Cavalcante

 

 

Mourão explica que escreveu este poema quando era paciente do hospital de Fortaleza como transplantado renal. Testemunhou, então, um costume doshospitais daquela região: O paciente é sempre envolto com aquele lençol em que estava deitado no momento da morte. Quando alguém morre, portanto, o lençol também se aposenta.

 
A morte vista de longe
Não se morre mais em casa. Citando uma pesquisa realizada na França, Mourão afirma que, hoje, 75% das mortes ocorrem em ambiente hospitalar. Após a morte, a pessoa é levada para a funerária, não há mais contato com a família. “Do ponto de vista psicológico, a morte se tornou um ato solitário que acontece entre o paciente e as máquinas… O drama da sociedade ocidental não seria a negação da morte?”

 

A morte, segundo Mourão, tornou-se mais um negócio em nossa sociedade capitalista. A ato de morrer se tornou um evento asséptico. Não se tem mais contato com ela, paga-se para que outros cuidem do corpo do ente querido.

 

O ponto máximo da discussão é a qualidade com que se vive e a afirmação da morte. Esses aspectos sim, depende de nós.

 

“As pessoas não morrem, ficam encantadas. No final, a gente morre para provar que viveu”. Guimarães Rosa

 

“O encantamento não está somente no que se vê, mas também no que se imagina”. Rubem Alves

 

“Não gostaria de estar viva no ano 2000. Não seria mais o meu mundo”. Simone de Beauvoir

Fernanda Bellei

 

 

 

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Scarlett Marton – artigo para CPFL Cultura

CAFÉ FILOSÓFICO | A morte como instante de vida | Com Scarlett Marton 

 

“Não se pode olhar diretamente para o Sol nem para a morte: a gente não pode encarar o nada” François de La Rochefoucauld

A morte é certa e implacável. Sempre o foi. Apesar disso, ela não é um fato assimilado de maneira uniforme ao longo da história da humanidade – já foi cultuada pelos pagãos e tomada como assunto proibido pelo cristianismo. E a sociedade contemporânea, qual olhar lança sobre a morte? A filósofa Scarlett Marton percorre momentos históricos e apresenta as diferentes perspectivas sobre o momento final, no Café Filosófico.

 

A tela “O enterro do Conde de Orgaz”, do artista El Greco, apresentada por Scarlett em sua exposição, retrata uma lenda popular. Dizia-se em Toledo (Espanha), que o Conde de Orgaz havia sido uma pessoa extremamente benemérita e que, no momento em que ele morreu, os santos Estevão e Agostinho, retratados na tela, desceram do céu a Terra para sepultá-lo. Também é possível ver personalidades da cidade de Toledo e, no parte superior do quadro, santidades como Virgem Maria e São João Batista, ambos intercedendo pela alma do Conde de Orgaz. No meio da tela, é possível ver a alma do Conde sendo transportada por um anjo. 

“O interessante é que nada representa a morte neste quadro. É verdade que temos um corpo, mas nada nos garante que se trata de um corpo morto. Temos aí retratadas a vida eterna e a vida mundana. É um quadro que tem por título ‘o enterro’, mas onde não aparece o cadáver”, analisa Scarlett. 

A obra de El Greco é um retrato da dualidade – ela é claramente dividida em metade superior e metade inferior, separando assim o céu e a Terra, o divino e o humano, o sobrenatural e o natural, a morte e o corpo. Esta tela foi pintada no final do século 16, momento em que a idade média abre caminho para modernidade, e que a filosofia é marcada por dois grandes nomes: René Descartes e Francis Bacon. “Neste momento o homem se vê capaz de dominar tudo o que o cerca, de controlar os fenômenos da natureza e aqueles que se passam nele mesmo. Ele se vê dotado de liberdade, de iniciativa e de um enorme poder de criação”. 

Scarlett explica que aquelas mesmas dualidades presentes na tela de El Greco começam a se reafirmar e se fortalecer na idade moderna. “O ser humano deixa de ser um todo, ele se torna dividido em corpo e alma, em consciência e instinto, razão e paixões e assim por diante. Dentre essas dualidades uma se impõe com muita força – a dualidade entre a vida e a morte. É na modernidade que se inicia um processo lento e gradual de abandono da morte”. 

Afastamento da morte
“Não se pode olhar diretamente para o Sol nem para a morte: a gente não pode encarar o nada” – a frase de François de La Rochefoucauld, filósofo do século 17, é interpretada por Scarlett como uma prova de que somos incapazes de enfrentar a morte. “Quando La Rochefoucauld diz que se olharmos o Sol, nós nos cegamos e se tentarmos olhar a morte, nos perdemos, ele está dizendo, na verdade, que vida e morte são inconciliáveis”.

Se na modernidade vida e morte estão separadas, e a vida é privilegiada, na antiguidade greco romana, a morte tinha o seu lugar. A filosofia era tida como uma longa meditação sobre a morte. Prova disso é a frase de Platão “Preocupar-se em morrer é uma boa via de acesso à filosofia”.

Naquele momento se reconhecia o direito de morrer. Era ele que permitia aos doentes desesperançados o direito de colocarem fim a própria vida, recorrendo, por vezes, ao auxilio de outras pessoas. “Essa nossa discussão sobre a eutanásia, se fosse colocada na Grécia e na Roma antiga, ganharia outras cores”, afirma Scarlett.

Do pagos à morte como fenômeno
Outro exemplo da próxima relação entre vida e morte, na antiguidade, era o fato de que as casas eram construídas ao lado dos túmulos. Scarlett cita a crença pagã de que os ancestrais, quando enterrados, tornavam a terra sagrada. “Paganismo e pagão derivam do vocábulo latino pagos, que também dá origem às palavras ‘país’ e ‘paisagem’. A palavra pagos, originalmente, designava aquele espaço de terra onde se plantava. Acreditava-se que cada pedaço de terra era governado pelo espírito do ancestral da família, que lá havia sido enterrado, tornando assim a terra sagrada. Podemos dizer que no paganismo havia um apego mortal à morte”.

Ao paganismo se sucedeu o cristianismo. Se no paganismo a morte ocupava todo o espaço, no cristianismo a vida ocupa este espaço. A idéia da sacralidade da vida é introduzida pela religião cristã, e o homem perde o direito de decidir pela própria morte, pois agora ela é considerada um dom de Deus, que deve ser preservado. “É neste momento que a sacralidade da vida ganha todo seu esplendor, como podemos ver na obra de El Greco”, acrescenta a filósofa.

O historiador francês Philippe Ariès, autor de um ensaio sobre a morte no ocidente, defende a idéia de que o homem ocidental aos poucos expulsou a morte da vida cotidiana. “Ocorreu uma passagem muito lenta e progressiva da morte familiar, vivida na idade média, em que a família ficava em torno do corpo, para a morte reprimida e proibida dos nossos dias. No entender de Philippe, o ocidente passou a considerar a morte como um fato extraordinário, o que fez com que procurássemos, a todo custo, fugir dela”.

Páscoa – a vitória sobre a morte
Sepulcro vazio, ausência do cadáver. Um dos ápices do catolicismo é o relato do momento em que Jesus ressuscita. Seu corpo sobe aos céus, em um sinal de abandonando e desafio à morte. “Naquela manhã de domingo, em que aquelas mulheres chegaram ao sepulcro, e que ele estava vazio, não havia mais morto, não havia mais morte. É este domingo de Páscoa que passa a ser privilegiado. A religião cristã diz, então, que o que nós chamamos de morte é simplesmente uma passagem para a verdadeira vida”.

Morte contemporânea – morte como fenômeno demográfico
“Hoje vivemos uma situação paradoxal – de um lado, a banalização da morte, fala-se da morte o tempo todo, ela aparece para nós como fenômeno biológico, assim como o nascimento, a puberdade e o envelhecimento. A morte também aparece como fenômeno social. Fala-se então em taxas de mortalidade e de natalidade, ou como fenômeno demográfico – populações crescentes ou decrescentes… Ouvimos falar da morte permanentemente, basta abrir os jornais: noticias de guerras, mortes de personalidades, cataclismas, tsunamis, terremotos… Fala-se em permanência da morte. Cabe então a pergunta – porque a morte é sempre vista como uma espécie de escândalo? Porque este acontecimento tão banal de nosso cotidiano ainda provoca horror e curiosidade?” Questiona Scarlett, explicando que a morte é um fato que não se assemelha a nenhum outro. É um fato desmedido e incomensurável.

A filósofa faz, então, uma comparação da morte com o amor, que é algo sempre novo. “Nunca somos vacinados contra a morte. Quando uma pessoa próxima morre, precisamos enfrentar algo novo”.

Instante mortal e instante de vida
Scarlett explica que é impossível filosofar sobre o instante que a morte ocorre, pois ele é desprovido da consistência do vivido. “No fim das contas, a morte não nos concerne, dizia Epicuro, afinal, quando ela se faz presente, nós não estamos mais lá. Em suma, podemos dizer que a vida é incapaz de nos falar do nada”.

Se existe um instante mortal, existem incontáveis instantes de vida, tantos quanto o número de vezes que nos paramos para refletir sobre a relação vida e morte. “Cada vez que pensamos sobre a morte, estamos meditando sobre a própria contingência do nosso ser. Isto é, pensar que vou deixar de existir, é meditar sobre o fato de que nem sempre existi e poderia não ter existido. A morte vem nos perguntar do sentido de estarmos vivos… Nos tornamos mais humanos quando sabemos que vamos morrer, pois aí nos diferenciamos de todas as outras espécies”, afirma.

A partir da frase de Friedrich Nietzsche, sobre a proximidade entre vida e morte, a filósofa faz uma última análise. “Nos distanciamos dos antigos, para quem a morte tinha lugar privilegiado, nos distanciamos dos modernos, para quem a vida era soberana. E chegamos, agora, a pensar que vida e morte são duas faces da mesma moeda”.

 

Fernanda Bellei

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